Portugaltunas - Tunas de Portugal

Crónica Covídica
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Crónica Covídica

Por José Pedro Rodrigues

Hoje estava a dar o meu passeio higiénico. No meu bolso o chat da Tuna não está a bombar, como às vezes está, mas há pessoal a falar sobre os rumores relativos ao estado de saúde de Kim Jong-Un. Seria o tipo de coisas que se abordaria no pós-ensaio, sentados a uma mesa de café. Haveria piadolas e suposições e teorias da conspiração e comparação de diferentes fontes de notícia.

Porém, não há pós-ensaio, porque não há ensaio sequer. Porque covid. E não fazemos ideia de quando poderemos vislumbrar um fim.

Toda a gente, penso eu, que vai ler isto teve um evento cancelado, fosse um festival a que ia, um festival que estava a organizar, uma atuação para uma Câmara Municipal ou um casamento. Eu vinha a Portugal para ir a um festival, depois até houve outro que se atravessou à frente, e acabou por nenhum acontecer. E neste momento a data a partir da qual um evento dessa índole possa voltar a ter lugar é uma incógnita. Os festivais de Tunas são eventos que juntam muita gente, tanto no público como no palco.

E a pergunta que portanto se coloca não é ‘quando é que isto vai passar' mas sim ‘como vamos regressar quando isto passar'. A história das Tunas tem mais de um século, e outras pandemias houve, até Guerras Mundiais, mas desses tempos só nos chega um punhado delas. O que aconteceu às outras? Terá a ver com algum desses fatores, totalmente ou em parte? Outros motivos? Não se sabe.

Mas terminou um census tunante este mês. Nós vamos conseguir saber. E desconhece-se se o panorama à saída desta situação será o mesmo de à chegada. A priori não será. As mudanças que o novo coronavírus trouxe são estruturais, afetarão toda a sociedade civil. Umas serão transitórias, outras vieram para ficar. Uma sociedade não sai inalterada de uma situação assim. Seria presunçoso da nossa parte achar que nós lhe somos imune. Portanto a questão torna-se, afinal, como é que vai sair a Tuna, portuguesa e não só, da pandemia covídica.

Nestes tempos proibitivos tem sido interessante assistir à transformação do palco da Tuna, de um palco físico, muitas vezes o chão sagrado da sua cidade, para um palco digital. Seja através de vídeos de janelinhas (algo a que nos vamos habituando), seja através de uma forte componente de redes sociais, até aparecendo na televisão, a Tuna vai matando essa fome de querer chegar ao público através destas e de outras diferentes formas. Mas tornou-se claro que é essa fome que move muitas das Tunas, e isso é bonito de se ver. Já perdi conta aos desafios que foram sendo lançados no Instagram. A cada dia sai um novo vídeo composicional de uma Tuna - ontem (25 de Abril) vi pelo menos 2. A Tuna tem-se desdobrado em esforços e criatividade para chegar às pessoas.

Mas a Tuna não vive só do público, mas muito também do convívio. Também tem sido bonito ver e vivenciar, mais a título privado, como as pessoas tentam chegar umas às outras. Muitas vídeochamadas, muitas chamadas de grupo e, acima de tudo, muitos ais sobre uma possível jantarada de regresso. Se se nota a falta do palco do costume, nota-se também a falta do convívio e das expressões de amizade, sejam elas carinhosas ou mais abrutalhadas. O partilhar de um copo, tocar qualquer coisa em conjunto, gozar uns com uns outros e dar uns abraços. Sente-se essa falta. (Ontem ligou-me um amigo da Tuna de Enfermagem da Madeira e estava trajado, porque era para estar em festival...). A manutenção desse contacto sem os ensaios regulares e as atuações será o outro grande desafio durante a pandemia.

No podcast aqui da casa, o Tunices, tem-se sempre regressado à questão-base da definição de Tuna. O decano Ricardo Tavares define-a sempre como uma expressão musical em primeiro lugar. Não sou eu quem vai desafiar a preponderância desse fator, mas atrevo-me à sugestão de algo mais. Talvez não seja um item definidor da Tuna, algo sem a qual ela não possa ser considerada como tal, mas é certo que há um certo espírito sui generis, uma toada, se quisermos uma metáfora musical, na Tuna, que está ligada a essa fome do convívio. E é minha suspeita que será esse espírito a trazer-nos para o outro lado da pandemia, e será essa cola que fará com que uma Tuna sobreviva, melhor ou pior, ao deserto a que o covid nos votou.

Um bem-haja a todos nestes tempos difíceis, em particular para a malta das Tunas, que não sabe quando se poderá ver um fim a esta paragem, mas em especial para os profissionais de saúde e para todas pessoas que estão na linha da frente a manter a sociedade a funcionar para que não percamos a saúde e o pouco juízo que nos resta.

Um sentido obrigado.

 

José Pedro Rodrigues

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