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O Paradigma da tuna estudantil portuguesa
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O Paradigma da tuna estudantil portuguesa

" ...o Horizaonte De Expectativas Pode E Deve Ser Controlado A Partir De Dentro..."

paradigma tuneril português

"não duvido de que (e como se diz em informática), "do ponto de vista do utilizador", toda a manifestação musical estudantil que implique a participação de mais de 5 elementos seja automaticamente etiquetada como "tuna" - passe o (eventual) exagero.

Porém, fica por decidir a quem cabe a definição do paradigma.

Se aceitarmos que essa definição é necessariamente feita de fora, então a guerra está à partida perdida, na medida em que será o horizonte de expectativas do espectador a arbitrar sobre o que é/não é/pode ser/não pode ser considerado "tuna". Sendo assim, a expansão desse horizonte far-se-á até ao infinito. Para ser mais exacto, será um finito-infinito: tal como no universo, o espaço alarga-se à medida que vai sendo necessário, pelo que os limites do que é uma tuna são rigorosamente aqueles que forem em cada momento: agora com kilts e boxers; daqui a 100 anos, sem estas, mas com outras coisas quaisquer.

É uma postura com a qual não me identifico.

A meu ver, o horizonte de expectativas pode e deve ser controlado a partir de dentro. Se nunca dermos açúcar nem sal a um bebé, o adulto não vai sentir-lhes a falta. E as tunas têm de facto responsabilidade na elaboração da dieta. A inclusão pontual de uma ou outra sonoridade pode até gerar o comentário de que "Uma tuna soa bem com...", sendo que esta proposição implica que há uma coisa a que se chama "tuna" e que essa coisa, naquela circunstância, se faz acompanhar de "...", que lhe é estranho.

Sendo assim, temos que existe um paradigma "tuna" ao qual "..." não pertence. Se assim for, é salutar. Mas se tal inclusão produzir a sensação de que "..." é parte integrante (se não mesmo essencial) da tuna, então há subversão do paradigma, ou então há um novo paradigma. Aí, haverá "..." e todos os "..." que se queira, mas não será tuna.

Bem sei que as tunas não atingirão nunca o mesmo grau de definição que os desportos, por exemplo, sendo que neste domínio é fácil dizer o que é Futebol, o que é Voleibol e o que é Futevolei. O futebol de praia não se joga com as mesmas regras do futebol de 11 nem o beachvolley com as do volei. Não faz sentido que um jogador de futebol de praia, indo jogar para um campo relvado com mais 21 jogadores, se queixe de lhe estarem sempre a marcar fora-de-jogo. Certo é que o paradigma de cada um destes evolui(u) - há uns anos no voleibol não se podiam usar os pés; no futebol houve durante algum tempo a regra dos passos para os guarda-redes. Mas a regulação foi sempre interna, nunca externa (apesar de algumas alterações terem sido feitas com o intuito de aumentar a "espectacularidade" de certos desportos). Quem não gosta de basquete, vai ver andebol, mas não está certamente à espera de ver pessoas a tentar enfiar bolas num cesto com os pés, por mais espectacular que tal possa ser. Ou é andebol, ou é outra coisa qualquer (muito mais interessante, porventura).

Outra questão: «Quem tem legitimidade para o definir?» Ah... essa é a "million-dollar question". Aliás, há uma outra com idêntico valor: «Quem tem legitimidade para o alterar?»

Há toda uma série de perguntas fascinantes e é a resposta que cada um de nós der que nos vai colocar de cada um dos lados de uma barricada intransponível:

1. Não existe paradigma. Bom, a questão está resolvida por natureza. Tudo é lícito.

2. Existe um paradigma. O que levanta uma nova questão:

2.1. Está definido? Duas respostas:

2.1.1. sim.
2.1.2. não. Caso em que se levanta uma nova questão:

2.1.2.1. É passível de definição? Duas respostas:

2.1.2.1.1. não. O problema está resolvido por natureza.
2.1.2.1.2. sim. O que levanta novas questões:

2.1.2.1.2.1. a definição pode ser feita "de fora": então o limite é a aceitação dos espectadores; o que nos leva a outra questão:

2.1.2.1.2.1.1. que espectadores? duas novas possibilidades:

2.1.2.1.2.1.1.1. os que já viram tunas - foram construindo uma representação de um paradigma

2.1.2.1.2.1.1.2. os que nunca viram tunas - o paradigma está totalmente "em aberto"


[Ora, se se aceita que o paradigma é "controlado" pelos espectadores, então se estes últimos virem kilts, boxers e sapatilhas naturalmente aceitá-los-ão como parte integrante do mesmo. Estes... "adereços"... ficam, assim, automaticamente legitimados, uma vez que não foram rejeitados por aqueles a quem cabe a definição do paradigma - e como podiam sê-lo?]

2.1.2.1.2.2. a definição do paradigma só pode ser feita "de dentro". Neste caso, tudo depende da actuação dos tunos e daquilo que eles impuserem como tal;
2.1.2.1.2.3. o paradigma é uma construção dialéctica entre actores e espectadores, evoluindo num ciclo "proposta->aceitação (ou não-rejeição)->validação->assimilação"

Não parece haver grandes dúvidas: ao que tudo indica, trata-se do último caso. Actores e espectadores partilham a responsabilidade na construção do paradigma. No entanto, há que ter em conta que a validação terá de ser feita a dois níveis:

- pelos espectadores, dentro do respectivo horizonte de expectativas;
- pelas outras tunas, na dupla qualidade de actores/espectadores.

A quem dar maior preponderância?

Não pode, a meu ver, haver dúvidas: tem de ser às outras tunas, mas de longe.

Assim, embora o espectador tenha alguma participação na definição do paradigma, será sempre ao todo da comunidade que competirá a validação e a assimilação no paradigma da nova proposta.

Se kilts, sapatilhas e boxers são esmagadoramente rejeitados pelas tunas, então aqueles agentes estão a construir um paradigma diferente, só deles. Não estão, então, dentro do paradigma "tuna".

Penso eu...

 

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