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Museu Fonográfico Tuneril: Um repositório essencial.
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Museu Fonográfico Tuneril: Um repositório essencial.

Entrevista A Um Dos Dinamizadores Do M.F.T.

O Museu Fonográfico Tuneril, criado em 2013, merece especial destaque por ser um projecto inédito e de grande utilidade na divulgação e promoção da Tuna e do seu legado. Para sabermos um pouco mais sobre isso, fomos entrevistar um dos seus principais dinamizadores.


PT - De onde surge a ideia do Museu Fonográfico Tuneril?

J.Pierre Silva - A ideia parte do amigo Ricardo Tavares, decorrente de conversas que tivemos sobre a necessidade que víamos em dar a conhecer a produção discográfica existente, que não se ficasse pela listagem feita na obra "Qvid Tvnae?" e que só ia até 1995. Ele avançou com a ideia e criação da página no Facebook e, depois, foi uma questão de tempo e oportunidade para a ir enchendo de conteúdo.

 

PT - Por que razão é importante tal trabalho?

J.Pierre Silva - Verificámos, logo depois do trabalho feito com "Qvid Tvunae?", no qual está patente um levantamento das edições produzidas até 1995, que, se não houvesse, quanto antes, um repertoriar do que depois disso se fez (e mesmo antes, ainda vamos sabendo/encontrando coisas que desconhecíamos existirem), se cairia no risco de ver perdida muita informação. Note-se que, com o desaparecimento generalizado dos sites das tunas, se perdeu, muitas vezes, a própria ideia de que esta ou aquela tuna tinha gravado alguma coisa (pior ainda, quando essa tuna se tinha entretanto extinto). Por outro lado, demo-nos igualmente conta, já na altura, que muitos títulos discográficos não os possuíamos ou nunca os tínhamos visto sequer, dado que, em larga maioria, as edições eram de pequena dimensão e logo absorvidas na restrita geografia das tunas (entre familiares, amigos e colegas). Ainda hoje vamos descobrindo tunas com K7 ou CD gravados há vários anos de que nem sequer sabíamos a existência.


PT - Mas tal empreitada não se faz sozinho. Com que ajudas contam?

J.Pierre Silva - Em nosso entender, era necessário chamar para este projecto não apenas quem já conhecíamos, mas também quem, pela sua experiência e longa vigência no mundo tunante, possuiria um conhecimento mais ou menos alargado da história discográfica das nossas tunas. Assim, ao CoSaGaPe (Ricardo, eu, João Paulo Sousa e Eduardo Coelho), se juntaram nomes óbvios como o Paulo Cunha Martins (Paulão), também ele um conhecedor profundo nesta área da discografia tuneril e José Rosado, o qual, para além do longo percurso tunante que leva, há anos lida com discografia tuneril, fruto do programa radiofónico que protagoniza, o "Capas Negras". Mas não é um círculo fechado, pois aberto à colaboração de quem tenha algo mais a acrescentar. A restante colaboração parte da própria comunidade tunante que nos vai contactando para dar conhecimento de obras editadas que ainda não constam do acervo do museu.

 

PT - Mas é, neste momento, um museu virtual. Poderemos nós, um dia, almejar ver algo mais palpável?

J.Pierre Silva - Não sei e, sinceramente, não é preocupação que esteja na ordem do dia. Com efeito, o que nos importa, para já, é mesmo coligir e tentar adquirir a totalidade do que tem sido produzido, catalogando e dando a conhecer o que tem sido a aventura fonográfica das nossas tunas. Um museu físico limitaria o acesso, enquanto que um museu virtual possibilita que ele esteja ao alcance de um click, estejamos nós em Beja, Viana ou nos Barbados.

 

PT - O Museu Fonográfico Tuneril apresenta, na sua página de FB, as imagens das obras. Seria exequível um dia ter também acesso ao conteúdo sonoro?

J.Pierre Silva - Possível é, mas menos provável, em razão das necessárias autorizações legais (direitos de autor), e que, a ser feito, obrigaria a migrar para um site com capacidade de armazenar e permitir acesso aos temas em Mp3, por exemplo, algo que a plataforma Facebook não permite.
Cremos, contudo, que apresentar fotos de cada obra (frente, verso, bolacha....) é já um passo importante, porque, mais do que fazer uma listagem, oferecemos a possibilidade das pessoas verem como é o objecto fisicamente e, assim, o reconhecer pictoricamente.
O que ainda não foi possível, por manifesta falta de tempo, foi fornecer dados mais detalhados de cada edição (editora, temas incluídos, autores....), mas tudo a seu tempo, se o houver.

 

PT - Estamos perante um Museu que, no fundo, dá a conhecer as coleções pessoais dos seus colaboradores. Fala-nos de como é a dinâmica de pesquisar, procurar e colecionar este tipo de material.


J.Pierre Silva - É verdade. É um Museu virtual, cujo conteúdo tem por base o acervo pessoal dos seus curadores. Quem sabe, um dia, em testamento (ou até antes), tais acervos não são reunidos sob a égide de uma organização oficial que possa traduzir fisicamente o sonho de termos não apenas um espaço, mas uma entidade que garanta o perpetuar da memória e cultura da Tuna. Todos nós, desde cedo, fomos amealhando algumas edições, quer por necessidades práticas, como o caso do Ricardo que, como responsável de um programa de rádio sobre tunas (o 1º do género em Portugal), entre 1993 e 1996, tinha de obter o máximo de material para passar, ainda grande parte em formato K7 (acervo, aliás, que brevemente ele irá incluir no museu), necessidade aliás também partilhada pelo José Rosado. Os restantes, de uma maneira geral, foram colecionando, conforme a ocasião se ia apresentando, e a carteira o permitia, fruto do contacto que se ia tendo com as demais tunas, nomeadamente em certames.


PT - Mas possuidor que és, de uma assinalável colecção de discografia tunante portuguesa, quando é que a tua colecção passa a ser um acervo de respeito?

 

J.Pierre Silva - Poderemos situar isso a partir do momento em que terminei os estudos e comecei a trabalhar, ganhando já para poder gerir o orçamento e poupar para estas "extravagâncias". Mas, para ser honesto, a minha colecção sofre um incremento considerável, mais que duplicando, precisamente a partir da criação do Museu Fonográfico, em 2013, data a partir da qual começo a vasculhar tudo quanto é casa de discos, feiras de antiguidades, feiras de discos e, principalmente, a contactar as próprias tunas a perguntar se possuem obras para venda (nesse particular, encontrámos muita resposta positiva, mas, em certos casos, dificuldades: muitas tunas até nos venderiam o seu CD, mas já não possuem aquele que desejamos, tendo-o deixar esgotar, sem manter uma reserva - às vezes nem para efeitos de arquivo histórico da própria tuna).

Tenho a dizer, com agrado, que a larga maioria das tunas tem-se mostrado colaborante, abrindo mão, muitas vezes, de obras que já faziam parte do seu espólio (cuja edição já estava esgotada há anos). Uma ou outra tuna já chegou a enviar o seu disco gratuitamente, sinal da importância e reconhecimento do trabalho de divulgação que pretendemos ir levando a cabo.

 

PT - Ou seja, os discos que recebem das tunas são pagos, é isso?

 

J.Pierre Silva - Naturalmente. Salvo uma ou outra excepção, todo esse material é obtido por compra, e julgamos que assim deve ser. Já é um grande favor que nos fazem na pronta disponibilidade em se incomodarem a enviar-nos o seu trabalho discográfico.

 

PT - Neste momento, quantas obras, ao todo, exibe o museu?

J.Pierre Silva - Neste momento, contamos, entre discos em vinil, K7, CD (a maioria) e DVD, cerca de 150 títulos (um número sempre a aumentar, em razão da contínua aquisição do que vamos encontrando).
Alguns são raridades autênticas, outros chegamos a ter em casa em duplicado, até. É um acervo que está continuamente a crescer, quer quando conseguimos pôr mão num disco há muito esgotado quer quando surgem novos trabalhos no mercado.


PT - Que dificuldades de maior relevo poderiam enumerar, nessa vossa aventura?

J.Pierre Silva - Existem várias. A primeira de todas é mesmo o conhecimento do que existe. Muitas tunas não dão a conhecer, nos seus actuais blogues e páginas de FB, as obras que editaram (com o desaparecimento dos sites, pior ainda) ou, então, nem uma imagem dos discos colocam para facilitar o reconhecimento visual.
Outro obstáculo prende-se com as obras esgotadas que nem as próprias tunas conseguem, por isso, fornecer qualquer exemplar; daí que nos perguntemos por que razões não se fazem novas reedições (mesmo que pequenas), o que até serviria para elas fazerem mais uns trocos e fazerem promoção da sua história e trabalho. Com tanta tuna a chegar às comemorações dos seus 20 ou 25 anos, era uma ideia feliz.
Abro aqui um parêntesis para alertar para o facto de estas novas gerações tunantes não fazerem sequer ideia da riqueza de toda essa produção, o que é pena - até porque muitos discos possuem temas de enorme qualidade a merecerem estar na posse dos tunos de hoje.

Terminaria por fazer um reparo a um facto que passa despercebido a muita gente e a muitas tunas: a ausência, em demasiadas edições, da referência ao ano de produção/edição da obra. Com efeito, são dezenas os títulos que não possuem uma só indicação do ano a que pertencem, o que, em termos de preservação da memória, da catalogação e historiar da Tuna é uma falha grave - e torna a nossa tarefa mais complicada.
Vai-nos valendo a internet, quando essa informação existe (por vezes nem isso) ou o pedido directo por essa info às tunas (infelizmente, muitos actuais tunos não possuem sequer tal dado). Contudo, daqui a 100 anos, quem nos garante que essa informação existe? Como será possível o trabalho de datação das obras, se nelas nada consta? Essa é mais uma razão que nos move neste projecto do Museu Fonográfico Tuneril.

PT - Para terminar, que mensagem dirigia à comunidade tunante?

J.Pierre Silva - Começaria por desejar que os tempos de crise passassem, de modo a que as tunas tivessem mais facilidade em editar discos novos. Depois, desafiaria as tunas a reeditarem os seus trabalhos, o que é lucro garantido, já que as primeiras vendas há muito pagaram as despesas de estúdio e edição, e permitiria dar a conhecer a riqueza do nosso património musical. Finalmente, continuar o apelo à colaboração por parte das nossas tunas, neste projecto desinteressado e pensado como um serviço prestado em prol da Tuna e dos tunos.

 

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