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O Vento Mudou
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O Vento Mudou

Uma Reflexão Sobre O Contexto Do Festival De Tunas, Hoje.

O Vento Mudou. Melhor dito, vai paulatinamente mudando, ao sabor das gerações, do Tempo. Nada de novo, dir-se-á. O que era antes tido como certo, verdade dogmática, certeza tuneril, hoje já não o é. O que outrora foi um bom festival hoje já nem sequer existe. Outros há que tendo sido referência, hoje já não o são. O impacto que causavam então, hoje já não causam. São anacronismos.

Em contraposição, novos eventos ou mais recentes surgem, tomando o lugar de destaque que - em tempos não muito idos - de outros eventos foi. É ciclico, faz parte do sopro do Vento. Normal. Vão surgindo aqui e ali, alguns timidamente, mas até por isso com margem de manobra para evoluirem.

Outros há que, existirem ou não, é rigorosamente igual: Não aquecem nem arrefecem, nada de novo trazem ao todo do fenómeno. São uma espécie de prova de vida - em alguns casos, penosa - quase que uma obrigação derivada do calendário Gregoriano, que apenas serve para enaltecer o ego colectivo dos organizadores e, em alguns casos, para exorcizar fantasmas até, levando ao descrédito ou pior, à indiferença do todo da comunidade. Também aqui nada de novo: O liberalismo tuneril sempre existiu e ainda bem, nada como o direito ao ridículo, até para glória alheia.

Dito isto, constata-se que o Vento de há 10 anos não é o mesmo que hoje sopra. Antes era vento quente, hoje é um Mistral - seco e frio. Os festivais de antes eram verdadeiros pontos de encontro de amizades, perspectivas, músicas e músicos, convívio, festa e, claro, de competição - se são festivais, para quê negá-lo? (aliás, nunca percebi o falso prurido relativamente à questão competitiva. Sim, não é o mais importante, até se aprende e apreende tal; mas até por isso negar o óbvio é estranho.)

Hoje, salvo um ou outro caso pontual, estão confinados ao palco e pouco mais. O que antes era de Sexta a Domingo, numa espécie de maratona tuneril onde a festa se espalhava pela ruas, hoje não passa de um mero espectáculo confinado a 3, 4 horas dentro de um teatro. Dir-se-á que a crise, os tempos, os Ventos são outros. E sim, são. Mas a constatação não deixa de existir por isso. Ou seja, o paradigma do festival de tunas mudou. Foi mudando, melhor dito. E provavelmente continuará a mudar, mesmo que os traços mais genéticos restem.

Alguém dizia, nos anos 90, que o mesmo paradigma seria sempre dificil de alterar. O formato surgido por cá foi beber ao formato, então, dos Grandes Certamenes espanhoís dos anos 80 - e já aqui com diferenças claras, ou seja, uma adaptação e não uma cópia tout court. A sequência dos actos, o programa, os prémios a atribuir, etc, são um modelo importado aos espanhoís e que se foi adaptando caso a caso, certame a certame, sem contudo sair do espartilho então importado - até porque não havia nem há outro modelo. 

Sabe-se que alguns casos pontuais tentaram alterar esse paradigma, onde o sucesso de tal é residual, isto é, apenas alguns conseguem, mesmo que pontualmente, sair do tradicional roadbook que é um festival de tunas, sendo discutivel alguns modelos entretanto encontrados - uns mais felizes, outros a roçar o grotesco, onde a dado passo não se percebe se se está perante um Festival de Tunas ou um qualquer Carnaval; é que a procura obstinada de diferenciação pode provocar exageros de dificil explicação. Sabe-se não ser fácil sair do espartilho; mas não é forçando a saída do mesmo que a coisa muda.

A diminuição de número de festivais, de há 20 anos a esta parte, faz com que alguns dos ditos clássicos - os que ainda são levados a cenário, outros houve que colapsaram - fiquem mais expostos face à opinião pública e por dois motivos: 1º) porque são sempre comparados a si mesmos e ao longo dos tempos e 2º) porque inevitavelmente comparados a outros mais recentes e que vão dando cartas. Não é a mesma coisa um certame com 20 edições ou mais face a um com 10 ou menos. Nascem em tempos, Ventos diferentes; logo, não jogam exactamente dentro do mesmo paradigma - nem poderiam jogar, convenhamos.

Por outro lado, a áurea do certame clássico, hoje, nesse mesmo certame, já não é a mesma, queira-se ou não. Porque os tempos mudam, os actores idem, porque há outros festivais, etc. Não é a mesma coisa ir-se a um festival antigo hoje e ter-se lá ido, a esse mesmo festival, há 10 ou 15 anos atrás.

Tem-se constatado nos festivais mais antigos - os ditos clássicos - uma constante repetição ad nauseam dos elencos, por clara oposição à maior rotatividade nos eventos mais recentes. A noção de "carrocel de convites" - como apelidei nos anos 90 - é obvia nos certames ditos clássicos, ocorrendo com menos frequência nos festivais mais recentes - o que faz sentido, pois estes procuram na diversidade dos cartazes atrair mais exposição, logo, mais público, e com isso maior alcance - que os ditos clássicos presumem (erradamente e quanto a mim) não necessitar.

O surgimento do streaming - cada vez mais usado - potencia sobremaneira uma nova visão dos festivais de tunas, dado que o público não se resume ao que se encontra no teatro, aumentando assim exponencialmente. Por essa mesma razão, o seu uso sem medidas cautelares a nivel técnico e de produção do espectáculo pode-se revelar um fracasso de dimensões consideráveis. Urge aqui pensar o evento previamente também nessa linha - o que de todo ocorre. Transmitir um festival via internet com falhas técnicas constantes do lado de lá do monitor não só é desagradável como evitável. Contudo, é um caminho ainda nos primeiros passos, com muito a explorar, que oferece uma nova dimensão ao festival de Tunas - logo, uma pequena adaptação do seu paradigma.

Em suma, menos festivais, com clássicos repetitivos de um lado e jovens inovadores do outro, onde se procura sempre algo novo - nem que seja apenas um alterar de nome - mas caíndo no tal espartilho que dificilmente se evita, por muito que se estique aqui e ali, se altere neste ou naquele ponto. 

Um festival de Tunas nunca se resumiu ao palco e o palco nunca resumiu um festival de Tunas, esta é a verdade. Certamente que o esforço de alguns em querer sair fora do cercado tradicional será de louvar. Mas o perigo reside sempre na percepção final com que se fica: Por vezes alterar pode não significar necessariamente melhorar. 


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