Portugaltunas - Tunas de Portugal

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"Arte" e "Adulação"

"Espectáculo É Adulação E Não Pode Substituir A Música. Pode - E Deve - Completá-lo..."

VERSÃO "LIGHT", para quem não quer ter o trabalho de ler isto tudo: um festival de tunas é um festival de "arte"? Se sim, de que "arte"? Respondo: música. Espectáculo é adulação e não pode substituir a música. Pode - e deve - completá-lo, como a medicina se completa com a alimentação saudável e o exercício físico com a moda e a cosmética.

 

VERSÃO PARA A "Oxford Tunas Review": Para falar deste assunto gostaria de recordar um livro que é um hino à discussão aqui vertida. Chama-se "Górgias", uma das obras mais conhecidas de Platão.

 

Um dos temas centrais é a bipolaridade "arte" / "adulação": a retórica estaria para a justiça como a cosmética para a ginástica e a culinária para a medicina, se não estou em erro. O "bom", o "belo" e o "justo" seriam substituídos pelo prazer imediato, pelo hedonismo, pela conquista tão aparente como fictícia.

Falando de tunas em concreto - mas em abstracto - julgo que essa bipolaridade reside no binómio "espectáculo"/ "música". Música é arte. Espectáculo é adulação. Vivem bem juntas, como a culinária vive com a medicina e como a cosmética vive com a ginástica. Mas onde está verdadeiramente a "arte"? A resposta é una: na música. Uma tuna/ estudantina é um grupo que apesar dos seus usos e costumes (praxísticos, presumivelmente) vive, reproduz e cria música. Se a ela somar umas anedotas? Óptimo. Umas bandeiras? Há quem goste. Uns confetis? Repito: há quem goste. Nada contra, é uma maneira legítima de conquistar o público. Mas não prémios, quanto a mim. Dir-me-ão: "resolução fácil, cria-se um prémio para a "espectacularidade" (ou semelhante). Tudo bem, separa-se o trigo do joio e cada um sabe ao que vem e o que quer retirar (questão bem diferente é saber se com isto não se afecta directamente o paradigma, mas isto é outro assunto). Mas a "melhor tuna" será para mim indiscutivelmente (mas não axiomaticamente, porque o é para mim) a melhor musicalmente, como melhor solista será o mais afinado (pode-se nem gostar do timbre e pode-se achar o alinhamento uma "seca": mas é isto, basicamente) e o melhor pandeireta o que conseguir a coreografia mais harmoniosa (subjectividade, novamente) e certa no tempo.

Note-se que é extremamente difícil criar parâmetros objectivos a partir daqui. Mas há alguns: afinação, complexidade dos arranjos, dificuldade de execução. É um começo. Mas nunca se pode esperar que a análise do júri seja puramente objectiva: aqui está o papel da adulação: ajudar à arte e não substitui-la. Numa linha: criar um bom "produto final", como a cosmética e a moda ajudam a uma boa ginasta cheia de curvas e como a alimentação saudável ajuda ao papel do endocrinologista.

Primeira conclusão: o júri deve saber separar o seu papel do restante público, que ninguém espera que esteja preocupado em avaliar os grupos, sendo que é precisamente por essa razão que se convence facilmente com a adulação repetida "ad nauseam". A "tuna x" foi a que mais gostou: perfeitamente legítimo: o público vai a um Festival de Tunas para dele retirar prazer, diversão. O júri não (não quer dizer que não o retire, mas não é essa a sua função primordial, pelo menos). Por isso é que tanto se ouve: "achei os prémios muito injustos, A, esteve bem melhor que C". Mas "melhor" em quê? Dependendo da resposta vemos se há ou não condições para prosseguir com a discussão.

Segunda conclusão: a forma melhor ou pior como se aceita um prémio (ou a ausência dele) consubstancia-se em inúmeras variáveis. A título de exemplo: está-se de boa-fé + é-se capaz de uma boa (objectiva) auto-análise: perfeito. Desde que não em anónimo, confronta-se o júri sobre este ou aquele aspecto e aguarda-se o contraditório. Agora o inverso: está-se de má-fé + não há um mínimo de objectividade mas apenas subjectividade (emoções, ego, etc.). Aqui está "o princípio de todos os males".

Mas também pode suceder que a pessoa esteja de boa-fé mas não consiga essa análise objectiva (repito: emoções, ego, etc.). Penso ser a hipótese mais recorrente, solucionávell pela análise "caso a caso" e com muita paciência (...).

É fácil de perceber qual a minha posição relativamente a este assunto. Há Tunas em Portugal tão boas musicalmente que apenas necessitam de fluidez na actuação e pouco mais. Com outras já não é bem assim, mas vão conseguindo compensar as lacunas de forma discreta. Depois há outras que... enfim.

Já estou a ver o que aí vem: "Mas uma tuna não é uma orquestra (ou um... "coral") e o que conta é o "espírito". Nada contra: há tantos lares de idosos, tanta casa dos pobres, tanta associação, tanta junta de freguesia a precisar de colaboração (sei-o porque fui abençoado na Secção de Fado com visitas regulares a dezenas). Vão, divirtam-se e divirtam. Mas depois não reclamem com os prémios (curiosamente estes adeptos do "espírito" e que aparentam "dar os prémios de barato" são os que mais fome costumam ter deles) em festivais (se é possível conjugar as duas vertentes? Claro que é!).

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