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Em Linha com....Eduardo Coelho
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Em Linha com....Eduardo Coelho

Entrevista Com Ex-Magister Da Tuna Universitária Do Porto

O PortugalTunas esteve "Em Linha" com Eduardo Coelho, antigo componente da Tuna Universitária do Porto  - para lá de outros grupos do O.U.P - e seu antigo Magister Tvnae, co-autor do livro sobre a Tuna Estudantil "Qvid Tvnae" que em breve estará nos escaparates. Eís a mesma entrevista...

 

 

(PTunas) : Como co-autor de um estudo profundo em forma de livro - o "Qvid Tvnae" - que conclusões te apraz retirar dessa mesma investigação??? Valeu a pena ir mais longe??

 

E.C. - Vale sempre a pena fazermos passar as nossas convicções pela peneira dos factos, por duas ordens de razões: ou estávamos certos e ficámos mais fortes, ou estávamos errados e ficámos mais fortes. De qualquer das formas, saímos sempre a ganhar. Foi desconfortável (é sempre desconfortável) sair da minha zona de segurança; foi frustrante (é sempre frustrante) ver algumas minhas convicções de décadas caírem quase uma por uma - outras foram confirmadas, é claro. Mas o balanço final é francamente positivo.

O mais difícil é dar o tal passo "atrás" que depois nos permite dar mil passos em frente. É quase como passar a pé por uma zona da cidade onde estávamos habituados a passar de carro: de repente, descobrimos que há muito mais do que só semáforos e sinais de proibição de virar à esquerda ou de sentido único; vamos descobrindo a mercearia que vende uma fruta fantástica, a pequena livraria que cheira a livros antigos, o café que tem umas bolas de berlim fabulosas, o pormenor dos azulejos da casa em que nunca reparáramos... e de repente da pedra e do asfalto nasce a vida quotidiana na sua complexidade.

Conclusões? A de que qualquer um dos capítulos que escrevemos é apenas a ponta de um novelo que importa desenrolar até ao fim. Naturalmente, o leitor encontrará uma obra acabada dentro daquilo a que nos propusemos e que até agora não fora ainda sequer tentado: atar todas pontas num nó comum. Se assim o posso dizer, construímos o "centro" de uma teia de aranha e unimos alguns dos fios que irradiam a partir desse centro. Sabemos que falta unir os "raios" divergentes: até agora, olhávamos apenas para as extremidades desses fios que, tal como na teia de uma aranha, estão presos a pontos diferentes, às vezes de tal forma distantes (diametralmente opostas, até) que davam a sensação de pertencerem a estruturas diferentes, quando afinal partiam todas do mesmo ponto. Sou hoje mais internacional do que era e, ao mesmo tempo - e quase por paradoxo -, mais português na minha forma de viver a tuna. Posso até dizer mais: não há nenhuma razão para não explorar e aprofundar essa "portugalidade", muito pelo contrário. Mas sem nacionalismos nem chauvinismos bacocos.

 

Até que ponto é pertinente a edição de um livro sobre Tunas estudantis em Portugal? Ou seja, será que esta obra de autor(es) terá mais repercussões para lá do seu próprio habitat?

 

Faz todo o sentido. Cada vez são menores as referências e os pontos de referência. Acho que a falta de renovação geracional acabou por ter um efeito contrário ao que as pessoas pretendiam: não houve passagem de testemunho porque não se deu azo a que entrasse gente a quem o passar. As tunas envelheceram antes do tempo. Salvo raras excepções, quando se sentiu necessidade de renovar a tuna, já era tarde demais: o fosso geracional era impossível de colmatar.

Sendo assim, um livro sobre a tuna é importante para preencher, de alguma forma, esse vazio.

Esperemos que possa contribuir para que o público em geral (e aqui incluo os próprios tunos) - e até mesmo os seus detractores - possa ter da tuna uma imagem mais realista, menos distorcida pelos mitos que se foram progressivamente instalando e que os próprios tunos se esforçaram por propagar e até mesmo dar consistência - como o do ditado que diz que "Os homens querem-se feios e a cheirar a cavalo". Mas depilados a laser também não...

 

Olhando para o que foi estudado e compreendido, como vês então a evolução - ou não - do actual espectro tuneril português?? E já agora, como vês o mesmo panorama no país vizinho, hoje?

 

Houve claramente uma interpretação feita de meias verdades. Nos anos iniciais do 2.º «boom», vivemos muito das interpretações erradas que nos foram veiculadas pela tunas espanholas com as quais convivemos. Estávamos como o homem do mito da caverna de Platão: olhávamos para as sombras convencidos de que estávamos a ver a realidade.

A Tuna em Portugal acabou por se confinar apenas à vertente artística pura e dura, refugiando-se cada vez mais no palco, perdendo o contacto com a rua (palavra tão em voga pelas piores razões...).

Já não me desloco a Espanha há alguns anos, pelo que não posso pronunciar-me em consciência sobre o que lá se passa. A julgar pelo que vi no último FITU, a renovação geracional continua a não se fazer. 25 anos depois, vejo as mesmas caras com menos cabelo e mais uns quilos...

 

Há hoje um claro investimento na musicalidade das tunas estudantis ou tal apenas se confina apenas às tunas ditas de referência? Ou seja, há ou não hoje uma clara relação custo/beneficio entre a musica e a projecção de uma determinada tuna? Porquê?

 

O diagnóstico está feito há muito tempo: os tunos (e, por consequência, as tunas), na sua maioria, aferem o sucesso pelo número de prémios que conseguem arrebatar. Há excepções, muitas mesmo. Mas os ensaios incidem quase exclusivamente nessa vertente. Por que razão não se ensaia na rua, debaixo da varanda, na esplanada, não sei. A parte de as tunas serem escolas de vida está (como a notícia da morte de Mark Twain) largamente exagerada. A vida não se ensaia - vive-se.


Há, no teu entender, um cavalgar da história das tunas mais antigas nacionais e por aí se ficam ou, pelo oposto, esse cavalgar deverá ser acompanhado por uma efectiva postura vanguardista a todo o momento? Não haverá muito "Em 1800 nós já cá estavamos" e pouca novidade de facto? Ou discordas?

 

Concordo a 100%. Mais uma vez, há que atender às circunstâncias de cada momento. É preciso que se entenda que em "1800" (data fictícia, como as "Marias" das reportagens) o que lá estava era um nome, uma instituição, não as pessoas. E é importante que as pessoas percebam essa "antiguidade" também lhes confere responsabilidade - e lá voltamos à história do Homem Aranha: "With power comes great responsibility". Querer só o "prestígio" sem a responsabilidade que o acompanha é como querer a cara sem a coroa. Já cá estavam em "1800"? Mostrem lá essa maturidade.


A Academia do Porto tem 77 tunas, de acordo com o ultimo censos efectuado, tornando-a na cidade do planeta com mais agrupamentos estudantis desta natureza. Que te apraz dizer e que comentários mais conclusivos este panorama te pode indiciar?

 

A nível pessoal, só me posso sentir satisfeito: se houver uma média de 20 tunos por tuna, temos 1.540 alunos do ensino superior dedicados a actividades artísticas e culturais; se em cada tuna houver quatro bandolins, temos 308 bandolins a serem tocados neste momento - mais do que o número de bandolins que estavam à venda na cidade do Porto em 1987. Há 77 contrabaixos a serem tocados - mais do que havia à venda em todo o distrito do Porto no mesmo ano. E poderia continuar a despejar números atrás de números de pandeiretas, cavaquinhos, bongós, congas, maracas, bandolas.

Vá de parênteses: a minha bandola - a primeira bandola das tunas estudantis do 2.º boom - foi comprada em Lisboa, na Estação do Rossio, por 12 contos (60 euros).

Isto não é tão pouco... Só isto vale a pena. Por menor que possa ser o valor artístico intrínseco de muitos dos agrupamentos, só esta pedrada no charco da apatia estudantil é motivo de orgulho.

Tenho pena de as ver tão desunidas, mergulhadas numa indiferença generalizada, cortadas por bairrismos (ou não estivéssemos no Porto...) que foram impostos "de fora" para dentro.

Espero que o livro possa contribuir para mudar alguma coisa neste aspecto.

 

A Praxe é indubitavelmente um dos genes do "Boom" tuneril de idos de 80/90 do Século XX. Mas será assim tão importante e pertinente para aquilo que é, hoje, a Tuna estudantil?

 

Não só não é importante, como é altamente prejudicial. É muito difícil fazer passar a mensagem de que se pode ser praxista e actor, praxista e jogador de futebol, praxista e nadador, praxista e jogador de bridge, praxista e tuno - sem que, por se ser tuno, tenha forçosamente de se ser praxista.

Já não sei de quantas mais maneiras posso dizer isto. Receio bem que a imaginação se esteja a esgotar...


Que caminhos vês, hoje, para a tuna estudantil portuguesa? E porque razões trilharão este ou aquele caminho?

 

No médio prazo, receio que se vá assistir a uma extinção em massa de tunas, um pouco à semelhança do que aconteceu em Espanha. Creio mesmo que muitas tunas já só existem de nome. Esta implosão vai fazer-se sentir por duas razões: encerramento das instituições de ensino superior, ao qual já estamos a assistir e que se agravará no futuro; pressão dos pais para a obtenção de resultados, por via do processo de Bolonha.

O futuro passará mais por tunas de "produção independente", isto é, por tunas que não estão directamente ligadas a instituições de ensino.

 

Finalmente, como vês o PortugalTunas e sua missão informativa e formativa. É relevante? Como, onde e porquê, em caso afirmativo.

 

O PortugalTunas continua a ser a "one-stop-shop" das tunas portuguesas. No aspecto da informação pura e dura, é a melhor estrutura - e não é por falta de concorrência. Felizmente, o PTunas está constantemente em concorrência consigo próprio, procurando ser sempre melhor do que o que já foi - provam-no os sucessivos "face liftings" por que passou ao longo dos anos.

Falta-lhe, talvez, dar o próximo passo: a imagem em movimento, a reportagem "televisiva".

No aspecto formativo, a principal mais-valia tem sido o fórum. As restantes secções estão francamente abaixo do que poderiam estar. A informação recolhida ao longo de tantos anos não está devidamente organizada ou não existe uma equipa específica para a recolha e tratamento de informações como os contactos, a discografia, etc., etc.

Não sei até que ponto seria viável haver uma secção de perguntas a "especialistas" sobre determinadas matérias: bandolins, bandolas, guitarra, pandeireta, bandeira, voz, contrabaixo, percussão, etc., aos quais os utilizadores se pudessem dirigir directamente para aconselhamento sobre assuntos especificamente relacionados com as diferentes áreas de especialidade - sem embargo de haver para cada tema uma secção de "faq", do género "Quais os melhores encordoamentos para piano de pregos?" "Adesivo ou látex para aumentar o atrito nas pandeiretas?", etc.

Se muitas cabeças pensam melhor do que uma, a verdade é que "expor" a "ignorância" no fórum pode ser desencorajador - além do ruído inútil que tantas vezes se produz. Outra possibilidade é indexar por categorias os tópicos do fórum, evitando-se que tanta e tanta vez lá apareça alguém a perguntar pelo melhor sítio para se encomendar uma bandeira ou sobre as melhores palhetas para violino - ou coisa que o valha.

Há margem ainda para progresso. Esperemos, pois, que haja disponibilidade, saúde, voluntarismo e... dinheiro para gastos!

 

 


[ Esta entrevista foi realizada por RT em 7/12/2011, em linha. Pode ser visualizada iguamente no Facebook do PortugalTunas ]

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