Portugaltunas - Tunas de Portugal

Em Linha com.....RT
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Em Linha com.....RT

Viramos O Bico Ao Prego, Desta Vez...

 

 

Viramos o bico ao prego: desta vez, conseguimos "pescar" Ricardo Tavares em linha e "à linha". Personalidade multifacetada, "nasceu" na Tuna Académica da Universidade Lusíada do Porto e foi "pai" da Tuna do Distrito Universitário do Porto. Conseguiu sempre casar o amor à tuna com o "bichinho" da informação - de início na rádio, na década pioneira de 1980; agora com o portal PortugalTunas, do qual é co-fundador e administrador, com incursões na blogosfera. É co-autor do "Qvid Tvnae?", a primeira obra sobre a Tuna estudantil portuguesa a ver a luz do dia.

 


[ PortugalTunas] Como co-autor de um estudo profundo em forma de livro - o "Qvid Tvnae" - que conclusões te apraz retirar dessa mesma investigação? Valeu a pena ir mais longe?

 

 

[ RT ] Antes de mais, uma declaração de interesses:


Confessar neste momento o meu manifesto desconforto por, ao fim de tantos anos a entrevistar, estar agora no "the dark side of the moon", ou seja, na cadeira do entrevistado, o que é, no mínimo, bizarro.

Depois, uma pequena rectificação: Em bom rigor, os eighties foram os anos loucos das"rádio-pirata" e a malta, então liceal, aproveitou naturalmente essa oportunidade para "poder comunicar", num tempo onde telemóveis e Internet eram miragens; eu não fui excepção e tive o privilégio, então, já mais a sério, e em várias rádios, de compartilhar o microfone com alguns nomes hoje bem conhecidos quer da rádio, quer da televisão. Mas "casar " a Tuna com a rádio, tal só ocorre nos anos 90, em pleno "boom" tuneril.


Posto o introíto e indo à questão directamente:


Desde logo, a grande conclusão resume-se ao postulado mais socrático (o grego, não o....) que existe e que se encerra na frase "Só sei que nada sei". O "Qvid Tvnae" teve o condão de expor a tremenda iliteracia tuneril que genericamente temos; eu por mim falo e reforço a bold essa noção. Quando os Tunos - e outros - o lerem perceberão o alcance real desta minha afirmação, restando aferir-se quantos saberão ler o que o "Qvid" contém, expõe, revela e prova cabalmente. Ler por ler, então sugiro antes obras de ficção e não o "Qvid"; quem quiser de facto saber mais, terá de partir de dois pressupostos: o 1º assumir a sua ignorância (o que neste meio é tão difícil, pois a esmagadora maioria acha que a mera condição de Tuno basta para ser-se um entendido em Tunas, o que é profundamente falso) e o 2º saber ler o que o livro diz, narra, conta (e para isso não basta saber ler...).

 

Todo o livro ata as pontas de um novelo e procura uni-las - "Y uniré las puntas de un mismo laço", cantou um dia Fito Paez... - tentando e conseguindo a meu ver o objectivo a que se propôs. Ao fazê-lo, tornou claro que os últimos 25 anos, grosso modo, sofrem de uma enorme mistificação a vários títulos no actual mundo tuneril, que foi "infectado" claramente por um excesso de "academismo" consentido pela Tuna, esta bem mais antiga, vetusta e respeitável, até. Quando se diz e prova que a tuna em Portugal nasce fora do meio estudantil e é este que o importa para o seu seio temos logo a (1ª) queda de um dos maiores mitos - e asneiras - que se propagaram nos últimos 25 anos, a de que a "tuna é praxe". Mentira, não é.

 

E não é, não porque eu queira ou deixe de querer; não é porque - e até prova em oposto - a investigação mostrou que não é. E assim sucessivamente. Aliás, o "Qvid" - e repito, saiba-se ler... - atira ao chão mais mitos do que Torres do Aleixo. E ainda bem, porque uma mentira repetida 25 anos a fio não invalida uma verdade centenária. É isso que se prova nesta obra que eu - e sem falsa modéstia - considero ser uma autêntica pedrada no charco, cuja repercussão real só se fará sentir a médio e longo prazo; não acredito que a Tuna portuguesa de hoje, genericamente, se dê sequer ao trabalho de o ler - que fará interpretar - mas espero estar sinceramente equivocado. Temo que o break even point deste livro seja daqui a uns largos anos.

 

Outra grande mais valia deste livro é ser um papiro para degustação intemporal e não uma mera edição de um jornal que perde actualidade 24 horas após a sua publicação. Esse carácter ad eternum que o "Qvid" tem no seu conteúdo é para mim - a par da grande conclusão que acima aludi - a sua 2ª mais valia. Não é esta obra, claramente, para ler-se em duas penadas, ainda que tal seja tecnicamente possível; é sim antes um repositório essencial do que fomos, de forma a perceber como somos e apontando claramente o caminho de como poderemos vir a ser.

 

E perceber estas pontas e atá-las é que leva o seu tempo, cunhando esta investigação com a sua real importância que, repito, não será, a meu ver, conferida no imediato mas sim ao longo dos tempos, num legado para gerações vindouras que tomarão a tuna em suas mãos - ou não. Certo é que estas ultimas têm agora por onde não inventar, o que é uma vantagem enorme face a quem lhes antecedeu, completamente "cegos" no que se refere a reais e concretas referências históricas, devidamente fundamentadas. À "malta" que recomeçou isto em meados dos anos 80 nem sequer se lhes pode assacar culpa alguma, preocupada que estava em vivenciar - e não em historiar.

 

A 3ª mais valia desta obra será, eventualmente, o seu lado pedagógico; é necessário que as pessoas percebam que têm de mudar de perspectiva ao lerem algo que comprovadamente é o oposto daquilo que sempre julgaram saber e tinham como verdade.
É necessário que se aceite pacificamente e por exemplo, que tuna estudantil e estudantina são dois termos para dizer rigorosamente a mesma coisa, que as tunas nacionais historicamente tocam sentadas e não de pé (algo importado da tuna espanhola, tocar de pé, como montes de outras coisas que deles importamos) e dizer o oposto é néscio - como ainda recentemente aconteceu - e que a tuna é praxe quando não é, de todo. É necessário que se perceba, ao ler o "Qvid" que afinal, o que supostamente era afinal não o é. E explica-se devidamente porquê.

 

 

Até que ponto é pertinente a edição de um livro sobre Tunas estudantis em Portugal? Ou seja, será que esta obra de autor(es) terá mais repercussões para lá do seu próprio habitat?

 

 

Desde logo pertinente por inusitado: pela 1ª vez investigou-se de facto e a fundo - e não de copy/paste... - o que foi a Tuna estudantil portuguesa e não só (convém referir). O seu carácter pioneiro na metodologia que aplicamos é por si só algo inédito: assumir-se que nada se sabia, começando do zero, do nada. 5 anos seguidos em bibliotecas e afins para se perceber o que não se percebia com "duas tretas" mal contadas e cantadas desde 1985 revela muito da predisposição (e pelo menos) dos seus autores, todos eles do meio tuneril. Logo a abrir, esta pertinência que quanto a mim é reveladora do carácter da intenção primeira da obra; nenhum de nós se arrogou como sumidade tunante, muito pelo oposto. Daí rir-me hoje a bom rir de alguns que, julgando tudo saber apenas revelam a sua ignorância - e arrogância em alguns casos.

 

Depois o livro em si mesmo: É de facto primus e sem pares; com todo o respeito - e porque os conheço pessoalmente a todos e amigos são - o que para trás de muito pouco existe não configura sequer o tal carácter de profunda investigação que o "Qvid" revela e dá à estampa, tornando logo a comparação ideonda. O que lhe confere, a meu ver, uma responsabilidade acrescida: não só é o 1º livro que retrata a tuna estudantil portuguesa feito por portugueses como ainda por cima, se trata da 1ª obra de investigação sobre a tuna portuguesa, trazendo coisas, factos, provas, retratos, dados, clichés, absolutamente inéditos e que estavam perdidos no tempo. Como terceiro plus, acaba sem querer - porque não foi essa a intenção primeira - por ir mais além geograficamente e abordar - atando as pontas do mesmo laço, lá está mais uma vez... - a tuna pelo mundo fora, configurando assim uma obra que interessará além do mundo tuneril. Receio - e este receio é agradável.. - que tenha este livro alguma repercussão nos países onde há tuna como Espanha - já temos, inclusive, pedidos para futura edição em castelhano.... - ou em países da América Central e Sul, por exemplo.

 

E sim, terá repercussões para lá do seu habitat natural, seguramente, aliás, as personalidades que o prefaciaram - Antonio Manuel Nunes, Rafael Asensio González e Armando Carvalho Homem - pré-anunciam essa mesma noção, de alguma transversalidade multidisciplinar que não se resume à tuna em si mesmo. Triste seria, sim, que o livro tivesse mais eco fora do mundo tuneril do que no seu próprio seio. Eu, pessoalmente, "temo" isso, não pela repercussão externa mas antes pelo desinteresse interno - quando não alguma azia. Há, em Portugal, o triste hábito de não se reconhecer em tempo útil o mérito de terceiros; regra geral tal só ocorre quando já morreram ou então quando estão na ante-camera de tal. Bom, mais vale tarde que nunca...

 


Já "cá" andas há um bom par de anos: ainda te falta "ver um porco a andar de bicicleta"?

 


Ora cá está uma pergunta deveras interessante, devo confessar, até porque começa com outra meia verdade; não será há um par de anos mas antes há um bom par de décadas. E porque é raro, quase inédito, estar nesta posição de entrevistado, mais não me resta que usar de rigorosa sinceridade: não só já vi um porco a andar de bicicleta como inclusivamente já vi uma vara deles a partir as bicicletas em palco e no final ainda saírem premiados por isso....

 

Sim, de facto, já vi muita coisa, devo-o dizer. Algumas dessas "coisas" que vi prefiro passar em frente, até, por manifesto decoro. Curiosamente são essas "coisas" que espelham, de igual forma, muito da sintomatologia do fenómeno no que toca principalmente ao relacionamento humano, que é definitivamente a parte que eu, pessoalmente, mais valorizo neste mundo tão peculiar. Uma coisa posso assegurar: todos nós já fizemos "asneiras" seguramente; uns aprendem com elas e seguem, outros teimosamente persistem na asneira. Estes últimos são aqueles que irão, mais tarde ou mais cedo, ficar sozinhos, para trás, esquecidos, com pouco ou nada para recordar daqui a uns anos.

 

Leva-se tudo isto demasiadamente a sério (o que não deveria, já o que deveria ser levado a sério não é...), alguns de forma obstinada até, como se as nossas vidas dependessem do facto de se ganhar ou deixar de ganhar o prémio XPTO. Não, não dependem e ainda bem que não. Logo, não percebo porque continuam a existir porcos a andar de bicicleta num meio onde apenas o que é preciso é homens e mulheres a tocar e a cantar (e não catraios e catraias com comportamento pré-liceal como vamos vendo) preferencialmente com elevação, clareza de ideias e - porque não? - algum conhecimento de facto sobre o que somos. Já agora, um pouco mais de bom senso e sensibilidade seria muito bem vindo: tocar-se mais com o coração e menos com o ego, em suma.

 

Percebo - como diz aliás em prefácio ao "Qvid" o Dr. António Nunes - que à juventude apenas se lhe pode exigir que se comportem como jovens que são, nada de mais correcto e eu corroboro. Mas sendo jovens universitários e no caso, entendo que o grau de exigência deve ser bem mais alto do que aquele que hoje existe, bem abaixo do que seria de supor, até, e que é seguramente uma das causas para que a Tuna em sentido lato não se imponha como cultura que é. Se a Tuna em Portugal hoje é reproduzida em doses maciças pelos estudantes universitários - e volto a recordar que a tuna NÃO nasceu no seio universitário em Portugal - caberia aos mesmos então uma atitude mais elevada, de clara maturidade a favor do todo e que, claramente, não existe. Quem paga a factura? A Tuna. Enquanto andarmos a medir e a polir os egos não investimos na imagem geral da tuna e sua credibilização exterior. E o pouco que neste campo é feito acaba por ser inglório. "Chateia-me" sobremaneira a ideia generalizada da sociedade civil de que tuna estudantil é a "Mulher Gorda", um garrafão de vinho e pouco mais que isso. Mas os culpados disso somos nós.

 


O que é mais fácil: fundar uma tuna ou mantê-la?


Definitivamente, mantê-la. Se já o era difícil em plena década de 1990, imagine-se o que será fundar e manter uma Tuna na 1ª década do Século XXI, em pleno contra-ciclo e ainda por cima numa Academia como a do Porto, onde o ambiente tuneril é ultra-conservador, onde as rivalidades - aparoladas, diga-se - se fazem sentir sobremaneira e muito pouco dado a novidades (mais por receio ao novo do que por outra razão lógica qualquer). O fenómeno tuneril nacional foi - e de certa forma, ainda é - pródigo em fundações a granel, de todo o tipo e feitio e para todos os gostos. Fundaram-se tunas por todo o lado e por todas as razões e mais alguma, que naturalmente assistem aos seus intervenientes; sou um profundo admirador da liberdade associativa, devo notar, logo, nada a obstar. Contudo, fundar uma tuna não significa por si só que a mesma exista como e enquanto tal (e já nem quero falar aqui dos que ao invés de as fundar ,as afundam, contas de outro rosário...).

 

A minha experiência mostrou-me precisamente isso. E é com enorme e indisfarçável orgulho que, olhando para trás, recordo a aventura em que embarquei, em 2005, e que hoje se revela na sua plenitude associativa, que "fala" por si só, nascendo pelos melhores motivos e que nunca teve um cêntimo de auxilio fosse de quem fosse; começar com uma mão cheia de nada e outra vazia de tudo, de uma mera ideia até à realidade de hoje, é algo que me deixa profundamente satisfeito. Mas o epíteto acima de "pai" parece-me algo excessivo, pois sem os meus pares co-fundadores nada teria sido feito; é graças a eles que hoje a Tuna do Distrito Universitário do Porto é o que é, prova cabal de que faz todo o sentido e que - frisando claramente nesta oportunidade - possui uma identidade, dinâmica e espaço próprios, tendo por ela passado Tunos de todas as origens, desde a Universidade do Porto ao Politécnico, passando pelas universidades privadas - todas - e concordatal, numa clara demonstração da sua real importância, pertinência, vitalidade e crescimento, cujos 6 anos de existência formal cabalmente atestam.

 

Manter, hoje, nos tempos que correm, uma associação de pessoas, com os mesmos objectivos partilhados, seja tuna ou não, é sempre algo a valorizar, num tempo onde o excesso de individualismo parece ser o - errado - paradigma. Os valores que se transmitem no associativismo são aqueles que melhor preparam até para o resto da vida. Não tenho a menor dúvida de que o aprendizado que o associativismo levado a sério lega - e não de treta onde se passa por cima de tudo o que é regra e estatuto - é uma clara e efectiva mais valia pessoal. Daí que manter uma Tuna e no caso deva ser sempre algo muito mais à frente, mais profundo, mais abrangente do que o mero espelhar-se com as suas congéneres.

 

Felizmente, e no caso da associação onde estou actualmente, assim o é e desde a sua fundação: não precisamos - e esta frase a mim me vincula - das outras Tunas para exercermos o nosso associativismo e desenvolvermos a nossa actividade cultural, benemérita e mesmo social. Para nós, uma outra tuna tem a mesma relevância que um rancho folclórico, um clube de caça e pesca ou uma associação humanitária. Evidentemente que tal afirmação não invalida nem colide, de todo e muito pelo oposto, com a natural e saudável convivência com as congéneres, algo que incentivamos e promovemos, até; ou seja, uma coisa não invalida a outra e vice-versa, antes complementam-se. Infelizmente a esmagadora maioria das tunas nacionais não percebeu que há mais vida para além...das tunas. O Editorial do Nuno Franco aqui ao lado é deveras esclarecedor quanto a essa matéria.

 


E, já agora, e a propósito da notoriedade das tunas, ajuda-nos a entender como é possível que, em 525.600 minutos possíveis de emissão radiofónica por ano (se não for bissexto...), não haja 4 minutos nas rádios nacionais (Renascença, Antena 1, ...) para a passagem de um tema interpretado por uma tuna?


Não será completamente assim, ao que sei, mas anda lá perto. Há claramente um deficit da nossa presença nas playlists - que não é de hoje - das rádios nacionais, e que eu atribuo claramente a uma letargia nossa, a uma falta de noção corporativista que potencie a nossa imagem exterior, tudo porque andamos todos - ou quase - "entretidos" a "festivalar" uns para os outros, como se isso fosse importante para quem é de fora do meio; claro está, quando se "gere" a coisa em circuito-fechado, obviamente que nada se projecta exteriormente. Se as rádios nacionais não passam musica feita pelas Tunas não será por falta de bom material e com qualidade que o há, como bem sabemos, e posso afiançar que não será também por má vontade face às Tunas.

 

A razão principal é só uma: Não fizemos nos últimos 25 anos qualquer esforço ou investimento para impor a nossa melhor imagem aos outros e nas raras ocasiões que tivemos para tal - o "Effe-Erre-Yá" foi paradigma disso - desbaratamos em disparates sucessivos o pouco capital de crédito que detínhamos. Se eu consegui nos anos 90 colocar no ar o "Noite de Tunas" por alguma razão foi; se se manteve no ar e em duas rádios de cidades diferentes, será seguramente por alguma razão que não somente a minha persistência e vontade.

 

Em suma, nunca tivemos força corporativa para fora e em contrapartida medimos forças uns para os outros, ou seja, para dentro; parece-me que há algo aqui que não funciona, definitivamente, e seria pertinente começar-se a pensar em algo que pudesse, de forma mais eficaz, projectar a Tuna em sentido lato para fora do seu próprio seio, promovendo-a de forma efectivamente produtiva e não cada uma per si - e mal, regra geral - num esforço quase inglório. Uma organização que nos representasse a todos e neste sentido de promoção da nossa imagem começa a fazer sentido, quanto a mim. Mas enquanto andarmos nesta coisa do "ora agora ganhas tu, ora agora ganho eu", o "nós ganhamos todos" ficará adiado ad eternum. Esta é a principal razão para a nossa praticamente inexistente imagem corporativa junto da sociedade civil, o resto é consequência. A opacidade da Tuna é responsabilidade nossa, não dos outros.

 


Uma parte significativa do teu labor neste mundo das tunas foi/é feita longe dos palcos. "Levantar ondas" (também hertzianas) para outros "surfarem" (também na Internet) deve ter dado muita "pica": mais "moca" ou mais "mocadas"?

 


Mais "moca" seguramente e, claro, dá "pica", caso oposto não estaria nestas lides. "Mocadas", sinceramente, dignas desse nome, não me recordo sequer de uma. Agora, cansaço, momentos mais complicados, sim, claro, porque tudo isto dá trabalho e o tempo hoje é um bem inestimável que urge gerir inteligentemente. Apesar de tudo, este labor é pro bono e como tal, encarado com o máximo de profissionalismo possivel mesmo que não remunerado. Na rádio tudo era mais rápido, mais mediático e imediato, obrigando a mais acção, pois vivia-se muito do momento, da entrevista no corredor do Coliseu em pleno intervalo de certame e por aí fora. Na Internet a coisa muda radicalmente de figura, o planear prévio é a chave de tudo o resto; o que vocês vêm p.ex. aqui, no PortugalTunas é apenas a montra de um enorme armazém - eu chamo-lhe "carinhosamente" porta-aviões... - onde tudo tem de estar devidamente pensado, arrumado, catalogado e por aí fora. Parece simples. Mas não é.

 

A missão de informar é sempre difícil; mais ainda num meio que durante anos viveu numa espécie de "clandestinidade informativa", uma auto-censura se assim quisermos, muito "na onda" da Praxe, daquela coisa do secretismo esotérico e afins, coisa que quanto a mim, só prejudicou a tuna, para gáudio da Praxe, claro está. E já nem quero falar da noção que alguns poucos tinham - e ainda têm, erradamente - de alguma "supremacia" que os julga imunes à (má, claro...) notícia. Já quando fazia rádio sentia, aqui e ali, isso mesmo e de forma absolutamente clara; na net é a mesma coisa, grosso modo.

 

Dai que a aposta informativa faça todo o sentido, mais para mais quando hoje vivemos numa sociedade da informação que devora tudo em real time, desde lixo à informação mais importante de facto. O repto agora é gerir o que é informação de facto, tudo isto num tempo em que qualquer um de nós tem no seu telemovel ou PDA tudo misturado, a granel, a cair em catadupa e à mercê dos "likes". Aliás, devo dizer que os "likes" para mim valem o que valem (muito pouco) e não constituem mais do que aquilo que são, gostos. Se são gostos, não são por isso noticia, seguramente. Não embarco na "tirania dos 140 caracteres" nem dela retiro qualquer conclusão para lá do que as coisas realmente são. Percebo o efeito Facebook mas não me submeto na informação e na formação à sua lógica; Um livro pode e deve estar online p.ex. em formato E-book; já meter o mesmo livro em 140 caracteres é impossível. E indesejável até.

 


Que caminhos vês, hoje, para a tuna estudantil portuguesa? E porque razões trilharão este ou aquele caminho?


Questão curiosa, sem dúvida alguma. A tuna estudantil portuguesa está numa encruzilhada sem que disso tenha sequer consciência; a maioria nem sequer se dá nota de tal mutação que se começa a operar, claramente. Tunas envelhecidas, pouca atractividade para os que chegam à Universidade agora, muitas mulheres a aderir à tuna (o que é óptimo!), perca do sentido mais clássico da tuna estudantil e seus preceitos como a serenata, p.ex, mas ao mesmo tempo com regresso à modalidade indoor da tuna - tão típica da tuna portuguesa de fins do Século XIX, inicio do de XX - e as ruas a ficar desertas. Uma Tuna que se aburguesou deixando de ser tão popular como o foi mas que não percebe que, ao aburguesar-se, não ganha grande coisa excepto uma estatuetas que rodam de mãos em mãos ano após ano, numa liturgia absolutamente gasta e desprovida de maior sentido e objectivo. Ou seja, continua descompensada face ao que é e ao que deveria ser.

 

Uma tuna que "se esqueceu" de ser solidária, salvo raras e honrosas excepções, que estoira fortunas com ensaiadores mas que pouco faz hoje para os gastar no registo de um Compact Disc, preferindo o momento à herança. A Tuna portuguesa está sob alçada de uma "troika" absolutamente letal - o prémio, o ego e Bolonha - e que a prazo médio fará devolver com juros elevados o que se anda a gastar indevidamente. Receio falências em catadupa de muitas, a breve trecho, por falta de liquidez nos seus activos ou por manifesta incapacidade em manter o actual estilo de vida. Muitos andam de Ferrari mas que é o mesmo de há 20 anos atrás agora com nova pintura, jantes e escape cromado e tudo; mas arranjos novos não são novos temas....

 

Quem se preparou melhor, a seu tempo, para o que aí vem, será quem vai sobreviver e aqui os modelos associativos mais generalistas, agregadores e abrangentes irão, estou certo, ser o futuro da tuna estudantil nacional, agora num tempo em que já não há dinheiro para que as Universidades apostem nas suas tunas como antes havia, nem há massa humana para compor tanta tuna que existe em Portugal. Uma vez mais, vamos, com décadas de atraso, passar pelo mesmo processo que a tuna espanhola passou - e de certa forma, continua a passar, embora no caso espanhol a vertente mais clássica se mantenha e quanto à sua base ideológica, enquanto no nosso caso vamos oscilando entre formatos consoante o cenário que nos envolve e o andar dos tempos.

 

Ainda assim, a tuna sempre soube airosamente adaptar-se aos tempos e sua evolução. Não me parece que desapareça, quanto muito veremos uma recessão e adaptação clara aos novos tempos, como sempre foi, aliás, se estudado o seu percurso histórico. A Tuna acaba sempre por ser ela mesma reflexo da sociedade em que se insere e a dado momento. Temos, hoje, a Tuna que merecemos, que fizemos ou não por ter, em suma. Mas atenção, note-se claramente que as coisas vão mudar e a Tuna, claro está, muda com elas, todos os dias, o que não é negativo antes pelo oposto, desde que permaneça fiel, afinal, à sua génese. Resumindo, veremos muita tuna a desaparecer de facto, restando apenas de nome ou em jantaradas e afins (quase um regresso à casa partida e não pelas mesmas razões) e a restarem algumas poucas, sendo que os modelos mais abrangentes serão os que melhor conseguirão adaptar-se. Não deverá andar muito longe disto. Veremos.

 

Resta-me agradecer o "desconforto" de poder responder a estas questões, na certeza de que tão cedo não me voltarão a "apanhar" nestes "assados" pois prefiro estar na pele do entrevistador...bom, regresso agora a essa condição bem mais familiar, então.....e Bom Ano a todos!

 

 


[Entrevista realizada por Eduardo Coelho em 26/12/2011, em linha. Pode ser igualmente visualizada no Facebook do PortugalTunas]

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