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Conversas de Verão com Nuno Simões
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Conversas de Verão com Nuno Simões

"A Tentação De Originalidade Sem Compreensão Ou Sem Respeito Por Esta Tradição Pode Ser Uma Seria Ameaça Ao Que Ela Representa E É."

P- Como vês, enquanto "jurássico", o actual panorama tuneril nacional? Que pontos podes abordar sobre?

R- O panorama tuneril nacional sofre desde ha uns 10 anos para esta parte de uma progressiva mudança devido a uma profunda mutação do panorama estudantil. Não sendo a Tuna Académica ou estudantil, o único modelo de tuna existente este no entanto tem um peso esmagador na imagem da tuna nacional e as alterações na estrutura do ensino superior portugues tem, a meu ver, influenciado de forma determinante as tunas nacionais. Vejo por exemplo a pressão que se exerce nestas após o tratado de Bolonha.

Em numerosos casos a evolução numa tuna era longa e a meritocracía respeitava tempos que não se coadunam com a duração de uma licenciatura de 3 anos. Nalgumas entrevistas que pude realizar esse facto era patente. Os novos elementos raramente entravam no primeiro ano ou tardiamente e no final do 3o ano muitos deixam a cidade onde estudavam o que deixa pouco tempo para percorrer o ciclo de vida tunante que era ate então regra. Isto obrigou algumas tunas a adaptações drásticas nem sempre bem digeridas ou bem conseguidas e colocando grande pressão nas estruturas das tunas que encontram dificuldade em garantirem a renovação das gerações.

Outro facto interessante é a generalização da permanência de “antigos “ nas estruturas tunantes de origem. Por vezes uma necessidade devido ao ponto acima apresentado mas também pela vontade de manter uma pratica que nalguns meios tinha supostamente de acabar com o período de estudos. Hoje estes antigos são um elo de ligação entre a tuna e a sua historia, entre a sua evolução e as suas tradicoes e acabam por dar alma e corpo a uma mística interna vista como desempenhando o papel de alicerce da construção e duração de um grupo. Esta presença de experiência e passado bem vivo no seio das tunas permite a muitos grupos terem a noção da importância da sua historia na construção futura não permitindo a repetição de erros e sim a constituição de um somar de experiências que permitem a tuna apreender uma evolução continua e com forte identidade.

O surgimento de um numero crescente de quarentenas e tunas de ex-estudantes também tem sido uma evolução interessante no sentido de mostrar que mesmo não podendo participar nas suas tunas de origem os tunantes mantém uma forte ligação a esta tradição e tentam organizarem-se para manter esta pratica e por vezes com resultados de alta qualidade que acabem por coloca-los num panorama tuneril que ja parecia sobrelutado com as tunas masculinas, femininas e mistas, afectas a instituições de ensino, a regiões ou cidades. Afinal, desde que haja qualidade, haverá sempre espaço para mais formas interessantes de tunas.

Por fim, uma involução. Se no inicio dos anos 2000 pretendíamos pertencer a uma tradição ja existente e conquistarmos o nosso lugar entre as grandes tunas hoje existe a vontade de ser “original”, tanto em traje, como em comportamento. Por vezes algumas coisas interessantes surgem mas são legião os exemplos de desrespeito pelo traje, pela musica ou ate mesmo pelo publico. A tentação de originalidade sem compreensão ou sem respeito por esta tradição pode ser uma seria ameaça ou que ela representa e é. Muitos querem ser tuna para depois deixarem de o ser na pratica.

 

P - Que diferenças de monta existem, se é que existem, face aos teus tempos de estudante?

Nos meus tempos de estudante apareciam tunas novas quase todos os anos por vezes sem nenhum acautelamento de condições de base para que tal corresse bem. As pessoas lançavam-se na aventura sem bem saber onde iria dar e os veteranos antes de mim eram os fundadores por isso experiência ou legado não existia e tentava-se compensar com padrinhos de outras tunas mais antigas ou com aparente maior competência para orientar a evolução do grupo. Hoje parece que o tempo fez o seu trabalho e são muitos os grupos que mal preparados e mal construídos acabaram ou se tornaram quase inexpressivos na sua pratica tunante. Outros grupos, que embora continuem no activo, alteraram de tal forma a sua estrutura e funcionamento que ja nada tem a ver com o plano inicial podendo ate estarem a pecar por falta de ambição. Parece-me hoje mais difícil as gerações presentes lançarem-se em fundações de tunas talvez por prudência ou por medo do fiasco. Dantes numa reunião com 8 ou 10 amigos lançava-se uma tuna, hoje os exemplos mal sucedidos poderão estar a resfriar muitas ambições.

Mais uma vez a estrutura do ensino superior alterou e muitos a vida das tunas. Na minha área de estudo, por exemplo, as tunas de enfermagem eram legião. Eram as dezenas e quase uma por cada escola quando não havia 3 tunas numa mesma escola como na escola de enfermagem da Terceira. Com a integração de certos cursos em estruturas maiores como IP’s, universidades ou escolas de saúde ditou o desaparecimento de grandes tunas em instituições onde a existência de uma tuna residente não permitia a existência de outra. Foi um processo insidioso e que ainda hoje deixou dificuldades de funcionamento em muitas tunas.

Por fim,na minha altura as tunas falavam umas com as outras para evitar sobreposições de espectáculos, hoje não vejo muita preocupação em terem na mesma noite e na mesma cidade 2 ou 3 eventos de tunas, haverá mesmo publico para tanto festival e encontro de tunas? Não será importante torna-los mais raros, mais trabalhados e por isso mais apetecíveis?

 

P - A Música, sendo a matriz da tuna estudantil por génese, teve ou tem para ti que relevância no contexto da tuna?

 

Para mim a musica é condição necessária mas não suficiente no contexto de tuna. Passando a explicar, acho que acima de tudo a construção musical em grupo e nos moldes tunantes rege a vida da tuna mas isto em de ser acompanhado por um sem numero de outros elementos que definem um grupo como tuna. Se a musica fosse o único elemento de relevo teríamos então uma banda, uma orquestra ou um conjunto/grupo musical. Algo na construção do grupo, na sua vida diária, funcionamento e interacção entre os seus elementos e o publico levam a definir uma tuna. Na tuna pretende-se criar um grupo com uma personalidade muito própria, um comportamento, e uma identidade forte que fomenta o sentimento de pertença forte que sabemos.

Queremos estar numa tuna com valores, que nos transmita algo, assim como queremos pertencer a um grupo cujo o valor é mais do que o valor das suas individualidades. Agora sem musica nada feito e o grupo fica vazio de sentido. É na construção musical que a tuna encontra os seus maiores desafios e as suas maiores realizações. Quando a tuna constroe musica em conjunto esta obra comum torna-se um bem geral, um fio de ariana que nos une, e temos então a verdadeira sensação de pertencer a um grupo.

 

P -  Que caminho ou caminhos vês a Tuna nacional a trilhar?

Posso ser polemico nisso e poucos concordarem comigo mas acho que a tuna devia assumir o seu papel cultural e social de forma mais explicita. Deixar de ser vista com “simpatia” por uns e ódio por outros e achar que só tem de saber o que é quem la esta dentro. A forma maioritariamente altruísta como transmite o ensino da musica, como representa e canta uma região, um pais ou cidade, a maneira como constitui uma escola de vida tem de receber o reconhecimento justo por parte da cidade mas isso cabe ao mundo tunante tornar esse reconhecimento incontornável. Pela sua atitude, desempenho e envolvência com o tecido social e cultural de uma região as tunas tem de se tornar tão respeitadas e reconhecidas como outras tradicoes de cariz musical e creio que com isso sairmos de uma imagem que nada tem a ver com o que vejo nas tunas e sei que elas são. Deixamos que uma minoria arraste a imagem de centenas de praticantes apaixonados e isso tem de mudar e não será necessário muito esforço para que isso mude.

 

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