Portugaltunas - Tunas de Portugal

Conversas de Verão com João Freitas
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Conversas de Verão com João Freitas

Conversas De Verão Com João Freitas

1. Como vês, como "jurássico", o actual panorama tuneril nacional? Que pontos podes abordar sobre?

Bom, desde já o meu agradecimento ao Portugaltunas pela oportunidade de publicamente expor alguns pensamentos sobre esta matéria, para mim tão grata. 

Quanto à questão em concreto, o panorama tuneril nacional apresenta uma determinada consolidação de projectos, uma formatação organizativa e uma certa acomodação musical. 

Por partes:

• Consolidação de projectos enquanto tuna através da permanência na tuna durante mais anos. Ou seja, Bolonha e a diminuição de estudantes no Ensino Superior devido a razões económicas e demográficas levou a que se permaneça mais tempo na tuna, determinando uma dificuldade na renovação dos quadros, é um facto, já todos sabemos esta é a realidade. Por um lado, isso incrementa uma maior coesão de grupo com naturais dividendos em termos de prestação musical e em termos de componente organizativaPor outro lado, este aspecto leva-nos a uma aproximação do modelo Espanhol, onde não é raro ver uma tuna, em que os seus membrostêm mais de 30, 35 anos. Obviamente que num futuro a longo prazo isto terá que ter as suas consequências, e já se percebe que no caso Português algumas tunas lutam diariamente pela sua existência e outras estão inactivas. Ou seja, o que pretendo dizer é que se no momento actual a consolidação do projecto pode ser benéfica à tuna porque transmite a quem a vê uma maior qualidade musical e uma maior qualidade no que organiza, no futuro e caso o cenário se mantenha, assistiremos a uma diminuição das tunas existentes ou pelo menos uma acentuada diminuição da sua actividade.
• Formatação organizativa, semelhante a um calendário no qual previamente conseguimos apontar com um ano de antecedência quais os eventos que serão apresentados. É um modelo que parece imutável, que se foi consolidando ao longo dos anos e torna tudo mais fácil para quem organiza. Penso que a tuna pode fazer mais do que simplesmente preparar-se para ter dois ou três momentos altos na sua actividade anual. Penso que a tuna não se pode fechar em si mesma e vivendo das glórias de participar ou vencer este ou aquele prémioFalta uma maior dinâmica organizativa que passa pelo intercâmbio musical, só assim a tuna poderá impor cada vez mais à sociedade em geral a sua riqueza musical e cultural.
• Acomodação musical é que tenho vindo a assistir nos últimos anos. Salvo honrosas excepções como por exemplo a EUL com o espectáculo Lés-a-Lés, e pese embora a qualidade musical de muitas e muitas tunas, tem faltado uma pedrada no charco. Isso está relacionado com o primeiro ponto, consolidação do projecto. Torna-se mais fácil continuar a interpretar os mesmos temas, e quando são bons mais fácil se torna, do que trabalhar em novos temas, em novos espectáculos que sejam apelativos para o público em geral e que se certa forma despertem o interesse daqueles que regularmente assistem a espectáculos de tunas. Por vezes torna-se fastidioso saber que vamos a um festival ouvir a tuna A ou B, e já sabermos que os temas serão os mesmos de há 5, 10 ou mais anos. E não falo apenas de se apresentar 1 ou 2 temas novos, falo em apresentar um espectáculo novo, penso que isso seria benéfico para o panorama actual. Arriscar faz falta, mas poucos querem correr esse risco.

 

 

2. Que diferenças de monta existem, se é que existem, face aos teus tempos de estudante?

As diferenças são tantas, que teria ficar para outra oportunidade falar deste tema. Em poucas linhas dizer que a responsabilidade com que se encara a tuna é diferente. Há uma grande preocupação em transmitir para o público uma imagem muito diferente daquela que se passava em 1993 ou 1994. Nessa altura tínhamos em Portugal, 10 ou 15 tunas que o que faziam era bom, tanto em termos musicais como em termos organizativos. Hoje esse número subiu exponencialmente e a imagem da tuna que tão degradada foi ao longo dos anos está novamente a ser credibilizada. Mas ainda há um longo caminho a percorrer, que passa sobretudo pelo incremento musical, pela responsabilidade que com se encaram os compromissos e mais importante do que tudo perceber que a actividade da tuna tem um público, e é para com o público que temos ser dignos e credíveis.

 

3. A Música, sendo a matriz da tuna estudantil por génese, teve ou tem para ti que relevância no contexto da tuna?

Se falarmos em 1992/1993, quando comecei, tenho que ser sincero e dizer que a música era um componente entre vários, mas certamente não era o mais importante. Hoje a realidade é distinta, e não concebo a tuna sem encarar a música como sendo a mais relevante componente da sua actividade. Hoje em dia felizmente há no panorama nacional, excelentes tunas, excelentes executantes, e é delicioso ouvir uma tuna quando esta interpreta bem aquilo que apresenta. A sonoridade de uma tuna é única, aprende-se a ouvir e a gostar, como tal torna-se mais fácil ao fim de 15 ou 20 anos sermos críticos. Nesse sentido e repescando o pensamento do ponto anterior, por vezes sentimos que há tunas que se esquecem que em primeiro lugar uma tuna é uma instituição musical, e só através da excelência musical é que se consegue cativar um público. A irreverência própria da juventude por vezes é transportada para dentro da tuna, e se não existir um equilíbrio entre essa irreverência e um determinado racionalismo de conduta assiste-se a espectáculos menos dignos, mais pobres, que em muito prejudicaram a tuna durante anos como já anteriormente referi. Penso que hoje em dia há uma maior preocupação neste campo, mais transversal e que é de salutar.

 

4. Que caminho ou caminhos vês a Tuna nacional a trilhar? 

A necessidade de fugirmos do estereótipo poderia ajudar. O modelo dominante da actividade da tuna passa por um calendário de certames como já tinha referido. Tudo é feito a pensar nos 25 minutos de actuação, na qual um regulamento préviocomum a quase todos os certames (com alteração deste ou daquele parâmetro)determina a obrigatoriedade de se apresentar o tema instrumental, o tema de solista, etc, etc. Pergunto se tem necessariamente de ser assim!? Esta formatação em que caímos limita sobremaneira a criatividade. Esta delimitação exígua de parâmetros e critérios avaliativos impede claramente a produção de novos espectáculos. Ainda bem que há tunas, e já dei o exemplo anteriormente, que tentam mudar o paradigma, ainda que não o façam porventura com o objectivo de o transformar de uma forma global. Nesse sentido a tuna tem que ser mais audaz, libertar a sua criatividade em prol de melhores produções musicais, beneficiando claramente quem a observa, ou seja, o público. Penso muito sinceramente que não devemos ficar reféns de regulamentos, ainda que tente compreender que assim seja e que não seja fácil mudar o tal paradigma. Por outro lado, como também já referi, penso que a tuna deve pensar em si como instituição musical, susceptível de ser integradora de projectos de intercâmbio musical, podendo e devendo insistir em criar projectos que não sejam fechados a outras sonoridades ainda que preservando a sua. Por último transmitir sempre aos mais novos, que apesar de a tuna se revelar como elemento congregador, porto de abrigo, espaço de intercâmbio cultural para fazer face muitas vezes a necessidades pessoais, deverá ser sempre, mas sempre, encarada por quem dela faz parte com a maior responsabilidade exigível, só assim a tuna se perpetuará na história.

 

Um abraço ao PT e votos de sucesso.

 

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