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À Conversa com... Coral Quecofónico do Cifrão
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À Conversa com... Coral Quecofónico do Cifrão

À Conversa Com... Coral Quecofónico Do Cifrão

1. É inevitável: De onde vem este nome tão sui generis? Há alguma razão para tal denominação?

Para responder a esta pergunta, seria bem melhor questionar os nossos fundadores, mas vou fazer os possíveis. Sendo nós a Tuna da Faculdade de Economia, o termo "Cifrão" será óbvio, num contexto pré-euro. O cifrão era, aliás, o símbolo do curso de Economia, antes da entrada em vigor da moeda única. Quanto a Coral Quecofónico, mais não é do que o conceito de "cacofonia" estilizado numa forma algo irreverente e característica daquele que sempre foi o espírito boémio de Coimbra. Segundo consta, num ensaio, alguém perguntou como é que se havia de chamar a tuna, ao que um elemento respondeu "só se for Coral Quecofónico do Cifrão". Na altura, gerou gargalhada unânime, e comentou-se "é mesmo isso". Como podem ver, "foi mesmo isso".

2. Como se enquadra o Coral no seio tuneril da sua Academia e desde 1993, data da fundação? Que importância assumiu então a Tesoural Tertúlia Irmandade das Sombras na sua génese? E hoje?

O Coral nasceu de dois embriões, digamos assim: o primeiro, conforme é referido na pergunta, é a Tesoural Tertúlia Irmandade das Sombras (TTIS); o segundo é o hábito que os elementos desta Tertúlia tinham de fazer serenatas. Ora, pouco a pouco, os nossos fundadores foram-se apercebendo que ensaiar uns minutos antes de uma serenata não dava grandes resultados. Para além disso, havia pessoas assíduas às serenatas, cujo contributo era essencial, mas que não se enquadrava nos parâmetros praxísticos exigidos para fazer parte da TTIS.
Esta questão acabou por ser resolvida, no ano de 1993, quando foi instituído nos Estatutos da TTIS a existência do Coral Quecofónico do Cifrão como "veículo de expressão artística e cultural" da Tertúlia. Desta forma, admitiam-se elementos externos apenas para as actividades "coraleiras" e abria-se a porta para dar uma maior seriedade e qualidade às prestações do grupo de serenatas "ad hoc" que até então existia. Assim sendo, em Novembro desse ano demos início aos ensaios oficiais nos Imperiais Paços do Reino do Convénus Mustinto, a nossa Sede de então.
Como se pode perceber, o nascimento da tuna está intimamente ligado às serenatas que os elementos da TTIS levavam a cabo, e esta é, para nós, uma questão igualmente identitária, daí as actuações do Coral serem sempre (salvo raríssimas excepções) feitas de capa traçada. É esta também a razão de ser das duas canções originais mais antigas, compostas especificamente para o grupo, a "Lágrimas de Amores" (que hoje dá nome ao nosso Festival) e a "Serenata".
Hoje em dia, o Coral preocupa-se em manter uma ligação importante aos seus fundadores, continuando a aconselhar-se junto deles e a conviver com os nossos fundadores, apesar da cada vez maior diferença de idades que nos vai separando. Os "vovôs" (como lhes chamamos) são, sem dúvida alguma, parte intrínseca da nossa identidade.

3. Actualmente como se vê o Coral no contexto mais alargado do fenómeno tuneril nacional?

Sinceramente, tendemos a vermo-nos como uma espécie cada vez mais "em vias de extinção", pelo menos no que ao fenómeno tuneril nacional diz respeito. Sem querer ser ofensivo para ninguém, e lamento se alguém achar o estamos a ser, o Coral não se identifica com muitos dos actuais grupos académicos que fogem das suas raízes tradicionais, ao introduzirem metais e grandes variedades de percussões nas suas actuações de palco. Respeitamos, aceitamos, nada temos contra essa opção (já convidámos grupos com estas características para o nosso Festival, por exemplo), mas a nossa não é essa, e não me parece que nos próximos tempos isso vá mudar. Optamos, claramente, por manter uma ligação muito forte aos instrumentos tradicionais da cultura tuneril.
Será, igualmente, importante referir que, sem falsa modéstia, nos temos em boa conta e temos orgulho no que fazemos, sem, contudo, deixar de pensar que devemos sempre procurar melhorar a nossa qualidade musical e alargar o nosso cancioneiro.

4. E como vêm o actual panorama tuneril?

Julgo que esta pergunta já ficou respondida no tópico anterior. Acrescento, contudo, que é sempre bom ver a quantidade de tunas que existem e que continuam a surgir, prova de que nas academias também se procuram outras vivências para além dos livros. Nesse aspecto, julgo que é relevante frisar que, apesar de o estudo ser o mais importante, deve sempre haver tempo e espaço para outras actividades que nos enriqueçam enquanto pessoas e enquanto cidadãos. Uma tuna não tem de ser apenas "copos e guitarradas" (e, honestamente, acho que nem pode). Com os actuais programas de apoio às associações juvenis, por exemplo, os elementos de uma tuna devem ser cada vez mais responsáveis e conscienciosos das suas funções enquanto cidadãos que têm que prestar contas a terceiros. Um apoio do pelouro da Cultura de uma Câmara Municipal, por exemplo, não se consegue sem existirem actas actualizadas e contas regularizadas, entre outras coisas.
Em suma, a quem integra uma tuna, já não basta saber tocar um instrumento ou querer apenas vida boémia: também tem que aprender a lidar com responsabilidades que, na vida futura do mercado de trabalho, farão parte do seu dia-a-dia. Se o actual panorama tuneril nacional aceitar esta realidade, então não só teremos melhores tunas (devido à crescente responsabilidade dos seus elementos) como também teremos melhores cidadãos no futuro.

5. A realização do vosso Certame "Lágrimas de Amores" é um marco na vossa história mais recente. Que projecção procuram com este vosso evento? Confina-se às tunas nacionais ou poderá ir mais além? Como o posicionam no contexto Coimbrão de certames de tunas?

O nosso Festival, que vai este ano para a sua 3ª edição, sem dúvida que é um evento do qual nos orgulhamos imenso. No entanto, não procuramos nenhuma projecção em particular com o mesmo. Procuramos, sim, alargar os nossos conhecimentos e, acima de tudo, proporcionar aos nossos espectadores um espectáculo para mais tarde recordar. Por enquanto, procuramos apenas tunas nacionais (tendo, inclusivamente, feito convites a tunas das Regiões Autónomas); talvez um dia façamos convites além-fronteiras, mas, no futuro próximo, isso não está previsto.
Face ao contexto coimbrão, acima de tudo, o que distingue o nosso Festival dos outros é o seu cariz solidário. Desde a 1ª edição que nos associamos a uma instituição de solidariedade social e grande parte das receitas revertem para a instituição. A deste ano, por exemplo, é a Comunidade Juvenil Francisco de Assis. Esta natureza solidária é algo que levamos muito a sério, especialmente nos tempos de crise que vivemos actualmente.

6. Mais uma inevitabilidade: O Coral, hoje, é mais tuna ou mais praxe? Ou seja, é mais musicalidade ou mais tradicionalidade? Porquê?

Acima de tudo, o Coral é mais musicalidade, sem, contudo, esquecer as suas raízes tradicionais. O Coral, em si, é um grupo que procura dar a conhecer às pessoas o cancioneiro tradicional e coimbrão, bem como o universo da música dita "de tuna". Já os seus elementos são livres de terem as suas visões sobre a Praxe Académica, havendo um pouco de tudo.
Felizmente, essa não é uma das preocupações que a tuna, enquanto grupo, tem que ter. Assumimos a nossa autonomia, e respeitamos as opiniões. Só assim podemos ser a Família que apregoamos ser.

O Presidente do Coral Quecofónico do Cifrão - Tuna da FEUC,
João Rocha

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